Moradores sentiram alguns tremores de terra em bairros de
Caruaru, na tarde desta terça-feira (3). O Laboratório de Sismologia da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte
(LabSis/UFRN) - responsável pela região - comunicou que registrou
abalos sísmicos simultâneos e um deles atingiu a magnitude de 2.0.
Várias estações registraram o fenômeno, em Riachuelo, Livramento, Rio
Formoso e Caruaru. "O evento principal, de magnitude preliminar 2.0,
ocorreu às 14:51 UTC (11:51, hora local) e foi precedido por um tremor
de magnitude 1.6. Um outro evento, de magnitude preliminar 1.7, ocorreu
às 15:30 UTC (12:30, hora local). (...) Há informações, não confirmadas,
de que o tremor teria sido sentido em São Caetano e Toritama", informa o
LabSis/UFRN em nota.
Pessoas deixaram casas
O
G1 entrou em contato com alguns moradores que
ficaram assustados com o evento. "Fazia muito tempo que eu não tinha
sentido. Estava lavando os pratos e fiquei com muito medo. Deixei tudo e
corri para o meio da rua. Foram muitas pessoas deixando as casas e os
prédios, com receio de que algo maior acontecesse", comenta a dona de
casa Eliene Silva, de 45 anos, que mora no Bairro São João da Escócia.
A doméstica Selma Moura, de 31 anos, afirma que o pai - que tem 64 anos
e reside no município de Belém de Maria, na Mata Sul - estava na casa
dela, no Bairro Cedro, quando percebeu o tremor. "Ele até olhou no
relógio e faltavam dez minutos para o meio dia. E ficou muito abalado.
Perguntou o que estava acontecendo. Eu, que já estou acostumada, apesar
deste ter sido bem forte, expliquei. Ele respondeu: 'Valei-me, meu
padrinho Cícero, que eu vou embora e nunca mais volto aqui!'. Meu pai
retornou para a terra dele na mesma hora. Ele nunca tinha passado por
isto". Selma Moura acrescenta que nenhum objeto foi quebrado, mas que "a
laje fez um barulho muito forte".
A Defesa Civil pede que a população se tranquilize, já que este tipo de
fato não representa risco de catástrofe. Coordenador da instituição,
José Keldari Quintino afirma que os abalos são "de baixa proporção, por
isso, algumas pessoas percebem o fenômeno e outras, não". Segundo a
instituição, em último registro, tremor no município havia atingido dois
graus na Escala Richter.
Redes sociais
O jornalista Vinicius Gomes sentiu tremores em dois bairros. "O
primeiro, eu senti no quinto andar de um prédio, no trabalho, e pensei
que fosse barulho de alguma obra, mas, pouco tempo depois, o pessoal
começou a comentar nas redes sociais. Era por volta de 11h. O segundo
foi ao meio-dia.
Nesse, eu já estava no Centro e senti também", relata.
Ele lembra que a cidade registra há muitos anos os tremores. "Houve
outros de pequenas escalas, mas a fase de constantes tremores que gerou
toda uma polêmica foi em 2002, na época da Copa do Mundo", afirma.
Nas redes sociais, além de relatos de como presenciaram os tremores,
internautas começaram a brincar com o assunto e a lembrar das lendas que
cercam o Monte do Bom Jesus. Há quem afirme que este era um vulcão. Em
uma página, a contabilista Vania Cristina Moura escreveu que "segundo os
mais antigos, não é vulcão, nem mina de enxofre, nada disso! É só sinal
de chuva!" Em contato com o
G1, contou: "Antigamente
uns diziam que Caruaru ia afundar por conta dos tremores e eu morria de
medo, mas minha mãe repetia o que dizia o meu avô: 'Isso é a terra
quente. Quando está essa quentura é sinal de que vem chuva'.
Coincidência ou não, para a região já vem vindo uma chuva boa".
Altas temperaturas
Fenômenos do tipo são corriqueiros na história sismológica da
localidade, conforme explica o físico Neymar Costa, do o LabSis/UFRN.
"Nós estamos em uma grande placa, a Sulamericana, e toda ela tem falhas
geológicas. Ela faz parte de uma camada rígida que envolve todo o globo.
O magma, a parte líquida, está sob pressão devido às altas
temperaturas, por isso há movimento no interior da Terra. E as tensões
são aliviadas através da liberação de energia [resultando nos tremores].
No lineamento Pernambuco, por exemplo, há uma grande falha que está sob
constante tensão".
Em nota, o LabSis/UFRN informa que "é impossível prever a evolução da
atividade sísmica, isto é, se se trata de um espasmo ou se é o início de
uma nova fase de intensa atividade sísmica, como ocorreu algumas vezes
em Caruaru". Sobre a relação entre tremores de terra e a falta ou a
vinda de chuva, o físico Neymar Costa diz que isto pode desencadear o
fenômeno dos abalos. Contudo, "são muitos os fatores e não se pode
precisar, neste caso, se foi por isso. Para se entender, quando o volume
de água aumenta ou diminui, ocorre o aumento ou o alívio da tensão.
Quando alivia em um local, aumenta em outro".